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José F. 67 anos


saio do trabalho e vou a subir a Av. da Liberdade quando este senhor me faz parar e tirar um dos fones dos ouvidos. Pediu-me um pão. Não tinha nenhum pão nem nada ali perto estava aberto, só tinha algumas moedas na carteira e umas bolachas na mochila. Dei-lhe as bolachas e não aceitou o dinheiro.
É natural do Porto e veio para o Seixal viver. É solteiro e sempre o foi, nunca se deu bem com mulheres e diz-me que sinceramente também nunca precisou de nenhuma mulher na vida dele. Só da mãe.
Perdeu a mãe e o pai e a sua única família neste momento são os dois irmãos mas que vivem na Bélgica. É tio de 4 rapazes e a sua preocupação era que Bruxelas é tão mas tão fria que não queria que os sobrinhos apanhassem frio. E essa foi a preocupação dele comigo quando falámos de frio "o menino tem de se agasalhar". Perguntei há quanto tempo e porquê que vive na rua: "eu no Seixal tenho quatro paredes para dormir, sem correntes de ar, mas não tinha comida nem dinheiro para a comprar. Consegui pedir dinheiro para apanhar o barco e vir até ao Cais do Sodré e isso foi há 3 semanas, vivo na rua, a céu aberto há 3 semanas mas ao menos tenho comida, muita comida".
A conversa deixou de ser a dois com a chegada de uma equipa de voluntários a distribuir comida. Couve, batata e carne, uma sopa servida num copo alto de pepsi e um pastel de nata quentinho.
Perguntei onde é que costumava dormir e responde-me a sorrir "desde que não haja correntes de ar é um sítio bom, todos os dias mudo de casa".
Passou o natal sozinho e perguntei-lhe se era feliz. Não me respondeu com uma única palavra, esticou-me a mão e desejou-me boas entradas. Pegou na comida que lhe tinha acabado de dar e foi-se embora.
Eu senti um forte murro no estômago.
Lisboa, 26 de dezembro de 2015. 

João Porfírio


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